FLORES by Mario Bellatin

FLORES by Mario Bellatin

Author:Mario Bellatin [Bellatin, Mario]
Language: eng
Format: epub
Published: 2015-05-22T04:00:00+00:00


Begônias

Antes que a senhora Henriette Wolf fosse aceita na universidade, o cientista Olaf Zumfelde pediu que esquecesse qualquer assunto relacionado a Gurdjieff. Que esquecesse também suas pesquisas sobre a Bíblia. Ele a colocou a par de suas descobertas científicas sobre o fármaco causador das más­formações. Até esse momento, aquilo fora tratado como informação confidencial. Confiava, de algum modo, naquela senhora. Queria, sobretudo, que ficasse claro para ela que no assunto dos laboratórios não estava em jogo nenhuma questão de fé. Sua intenção era questionar a ciência até as últimas consequências. Estava convencido de que nos últimos tempos os avanços nesse campo surgiam de forma desgovernada, sem nenhum tipo de controle. Era hora de alguém advogar a favor das vítimas que esse processo desenfreado acarretava. Anos depois, quando o nomearam supervisor oficial por ordem do governo, costumava esperar os pacientes com um minigravador na mão direita e uma fita métrica na esquerda. Começava a examiná­los tirando as medidas dos corpos ao mesmo tempo que falava com o aparelho, colando­o exageradamente à boca. A senhora Henriette Wolf o escutava de pé, a seu lado. Segurava sempre uma pequena caderneta. Depois de vinte minutos de exame, o cientista costumava dar o veredicto. Mutante ou Afetado, eram as duas possibilidades. De imediato, a senhora Henriette Wolf anotava na caderneta a palavra dita pelo cientista. Depois conduzia o paciente até a pequena antessala. Enquanto o ajudava a se vestir, dava­lhe instruções sobre o que devia fazer em seguida. No caso de tratar­se de um afetado pelo fármaco, indicava os passos a seguir depois que o cientista assinasse seu atestado. Mas, se fosse um mutante, falava­lhe com distância. Quem quer que tivesse visto aquelas cenas pensaria que um estranho prazer tomava conta da senhora Henriette Wolf no momento de descrever as possíveis causas das mutações no gênero humano. Às vezes, parecia não se lembrar do juramento que havia feito ao cientista de esquecer suas crenças passadas. Referia­se, então, no tom baixo com o qual aprendera a se expressar durante seus anos no exterior, a Gurdjieff e a seus ensinamentos. Também às suas próprias interpretações da Bíblia, que começou a elaborar num minúsculo apartamento em Paris. As conversas que tinha na antessala faziam com que, muitas vezes, o ambiente ficasse envolto numa espécie de halo espiritual. Porém, houve uma ocasião em que um verdadeiro escândalo tomou conta do consultório. Foi quando um tocador de realejo, que havia perdido a perna em um acidente de trânsito, tentou se fazer passar por vítima com direito a indenização. A senhora Henriette Wolf observou como o cientista Olaf Zumfelde empalidecia ao comprovar que as medidas que ia tirando com a fita não condiziam nem com os cânones dos mutantes nem com os dos afetados pelo fármaco. O cientista passou do desconcerto à ira. Atirou o minigravador no chão e saiu do consultório batendo a porta. Tamanha foi a indignação mostrada pela senhora Henriette Wolf ao dar­se conta do que acabava de acontecer que ela não conduziu o paciente à pequena sala, levando­o nu ao ambiente onde os demais esperavam sua vez.



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